terça-feira, 12 de abril de 2011

Quando a genialidade calçava luvas


Posicionamento político, força midiática e polêmicas são alguns dos principais pontos abordados em Facing Ali (2009). Dirigido por Pete McCormack, o documentário conta, cronologicamente, a vida e as principais lutas de Muhammad Ali, narradas apenas por rivais. Além de abordar a importância do três vezes campeão mundial dos pesos pesados dentro e fora dos ringues.

No filme, nomes como Joe Frazier, George Foreman e Leon Spinks falam sobre a forma como Cassius Clay, como era conhecido antes de se converter ao islamismo, colaborou na batalha contra a discriminação racial na década de 60, quando a população negra dos Estados Unidos intensificou a luta pelo fim da segregação.

Campeão mundial aos 22 anos, o boxeador não era precisamente um líder como o seu “tutor” Malcolm X e em diversas ocasiões foi antiético, mas sabia exatamente como utilizar o alcance da imprensa para expor suas opiniões. As declarações fortes e cheias de orgulho racial fizeram com que o lutador se tornasse uma espécie porta-voz da comunidade negra, até então carente de espaço para exigir direitos iguais.

A forma como Ali rejeitou se juntar ao exército americano na Guerra do Vietnã, o que levou o ex-boxeador a ficar três anos suspenso, assim como a mobilização popular que a decisão causou na época, demonstram como é importante que ídolos do esporte se posicionem politicamente. Postura bem diferente da adotada pela maioria dos atletas contemporâneos.

Atualmente, principalmente no Brasil, grande parte dos esportistas ainda foge de questões políticas e sociais, seja por medo de alguma repercussão negativa na carreira ou simples falta de conhecimento. Omissão nociva já que o esporte possui forte influência social. Assim, se os atletas soubessem explorar o espaço que possuem na mídia, poderiam colaborar para a construção de um país melhor.

O filme também aborda como o ex-boxeador conseguia aliar boxe e marketing. Polêmico, ele sempre provocava seus adversários antes dos combates. Essas atitudes promoviam o evento, geravam comentários na imprensa e, consequentemente, maiores bilheterias. De fato, Muhammad Ali foi o primeiro atleta a transformar esporte em espetáculo, aspecto que hoje é característico nos Estados Unidos.

O documentário ainda conta um pouco da história de cada lutador que participa do longa, todos marcados por uma infância pobre e que encontraram no boxe o caminho para melhorar as condições de vida ou largar o mundo do crime. Dessa forma, enfrentar Ali representava muito mais do que o título mundial, era a vitrine perfeita para conquistar novos contratos e ganhar mais dinheiro.

Através das declarações de cada lutador, Facing Ali mostra como o boxe foi importante na consolidação do esporte como ferramenta de inclusão social. Uma modalidade símbolo das classes menos favorecidas, talvez pelos riscos ou baixo custo para praticar, e que graças ao talento de um gênio chegou a outro nível. Exemplo que levou diversos jovens pobres a calçarem as luvas e partirem em busca do estrelato.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Cobertura trágica


O massacre que aconteceu na manhã desta quinta-feira, em Realengo (RJ), foi uma das piores tragédias que tive o desprazer de acompanhar. É revoltante saber que um sujeito fortemente armado invadiu uma escola e matou 11 crianças. Nada justifica uma atitude monstruosa e inumana como essa. É algo horrível.

Assim, a atrocidade cometida por Wellington Menezes de Oliveira, que deveria causar revolta o suficiente apenas pela maneira como aconteceu, me deixou ainda mais indignado ao ver a forma como foi tratada pela imprensa brasileira.

Poucos minutos após receber a notícia, notei o seguinte comentário: “Violência importada. Have you seen something like that on the movies?”. Achei o comentário, vindo de um companheiro de profissão, extremamente raso e preguiçoso. Colocar a culpa do que aconteceu nos Estados Unidos ou em qualquer outro país é simplesmente um absurdo, algo que não deveria ser cogitado em hipótese alguma por um jornalista. É um pensamento colonizado, treinado apenas para achar um culpado para tudo, sem nenhuma análise aprofundada sobre como a sociedade brasileira e suas dificuldades podem influenciar na criação de assassinos.

Não sou nenhum especialista, mas penso que a violência, entre outras coisas, é resultado de diversos conflitos sociais. Acreditar que os filmes americanos são os principais responsáveis pela morte de 11 crianças na Zona Oeste do Rio de Janeiro é lamentável. Coisa de quem não consegue pensar sem uma coleira. Daqui a pouco, é provável que essa mesma pessoa coloque a culpa em Portugal por ter nos colonizado de forma violenta.

Outro ponto que me deixou profundamente irritado foi o show de sensacionalismo barato protagonizado por Reinaldo Gottino. Era visível a luta do apresentador do SP Record para ser mais chocante do que o fato em si. Uma abordagem patética, desrespeitosa e altamente despreparada. A guerra pela audiência deveria ficar em segundo plano na cobertura de tragédias como a que aconteceu em Realengo.

Será que nenhuma dessas pessoas, em momento algum, questionou as condições precárias da segurança pública brasileira?

Como um homem armado entra em uma escola sem nenhuma resistência e mata 11 crianças inocentes?

É tão mais simples colocar a culpa nos EUA?

É válido desrespeitar o momento de luto dos pais das vítimas apenas para conseguir audiência? E quando vamos encarar a realidade?

E quando vamos votar direito e exigir mudanças concretas dos nossos governantes ao invés de colocar palhaços no poder?

Nosso jornalismo é despreparado...

Feliz dia do jornalista...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pretérito perfeito


Cada dia mais “colorido” e “impotente”, o rock atravessa por um momento cheio de incertezas. Sem nenhuma revelação importante no cenário, talvez a última seja o Avenged Sevenfold, restou torcer para que alguma banda já consagrada pudesse apresentar algo diferente. E, graças a Deus, foi exatamente o que aconteceu. Recentemente, The Strokes e Foo Fighters mostraram que a saída para a falta de inovação no estilo pode estar no passado.

Sem lançar nenhum álbum de estúdio desde First Impressions of Earth (2006), o Strokes não decepcionou com o recém-lançado Angles (2011). O grupo norte-americano, que já flertou com influências dos anos 60 e 70, decidiu passear pela década de 80 e o saldo foi positivo. Faixas como “Machu Picchu”, “Two Kinds of Happiness” e “Games” são recheadas com sintetizadores e batidas eletrônicas interessantes, que lembram o que era exaustivamente explorado por bandas como Depeche Mode e New Order. Além de combinarem com o estilo de vocal imposto por Julian Casablancas.

Quem também apostou em algo mais “retrô” foi o Foo Fighters. Sob a promessa de que Wasting Light (2011) seria o registro mais pesado da carreira, o quinteto abriu mão da tecnologia e decidiu gravar o álbum inteiro em lo-fi para garantir fidelidade ao estilo rock de garagem. Músicas como “Bridge Burning”, “Rope” e, principalmente, “White Limo” apresentam riffs fortes, imponentes e que valorizam os graves.

Produzido por Butch Vig, responsável pelo clássico Nevermind, do Nirvana, o disco não cumpre à risca a definição de peso em todas as faixas e ainda trás influências melódicas, que dominaram os últimos trabalhos. Mas a ideia certamente deve ser reverenciada.

“Ousados” e extremamente eficientes, os novos álbuns de Strokes e Foo Fighters surgem como um desfibrilador para o rock, que está cada vez mais decadente. São a prova de que é possível inovar dentro do seu próprio estilo, sem forçar nenhuma mudança drástica, algo que ficou evidente em álbuns como A Thousand Suns (2010), do Linkin Park, e Audio Secrecy (2010), do Stone Sour.

Acredito que explorar influências do passado pode garantir o futuro de um estilo musical, até certo ponto, fechado e que dificilmente aceita grandes mudanças.