
Na última semana, o ator Lázaro Ramos deu uma declaração que me deixou, entre outras coisas, surpreso. De acordo com o galã da novela Insensato Coração, a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, causaria forte impacto na comunidade negra brasileira.
“Acho que isso afeta a nossa autoestima de uma maneira incalculável. Você não acha que uma criança negra que vê um presidente como o Obama não vai se sentir mais possível? Ver um referencial positivo sempre estimula a gente a querer mais, a se sentir mais possível. Eu falo de criança porque geralmente é onde referências são importantes, mas para mim ele também é uma superreferência”, disse Ramos durante uma entrevista à BBC Brasil.
O ator também destacou a importância da família Obama. “E quando falo desse lado simbólico do Obama, falo também da família dele. Não consigo excluir a Michelle e as filhas como um referencial. Eu gostaria de ser aquela família, sabe? Para nós, que somos de um país com população de maioria negra, é muito importante receber essa família. Um cara que cuida tão bem da sua família, uma mulher que está ali parceira de seu marido, e também com um discurso bacana, com projetos interessantes. Isso me toca como brasileiro”.
Por questões explicitamente empíricas, discordo totalmente das ideias de Lázaro. Beira a estupidez afirmar que a visita do presidente dos Estados Unidos pode causar um forte impacto na comunidade negra brasileira. Um positivismo exacerbado e que não condiz com a realidade.
Como negro e cidadão brasileiro, o ator global deveria saber que não é uma visita de dois dias, com passagem "expressa" por uma favela, que vai estimular alguém. Muito menos um discurso de 23 minutos, cheio de diplomacia e intenções. Já fui alvo de racismo e, infelizmente, até hoje sofro com problemas de autoestima. Assim, garanto que a visita de Obama ao país não muda absolutamente nada na minha vida e também não faz com que eu me sinta mais capaz.
A representatividade e carisma de Obama são incontestáveis, da mesma forma como a estratégia utilizada por ele para atingir a presidência, mas não aumenta a capacidade de ninguém. Apenas dá um belo tapa na cara da sociedade brasileira. Mostra que o povo norte-americano é bem mais evoluído mentalmente do que o nosso.
Enquanto eles conseguem superar qualquer preconceito em busca de um país melhor, pois elegeram, mesmo que não tenha sido por unanimidade, um presidente negro, a sociedade canarinho traveste o seu racismo atrás do que chamamos de “politicamente correto” ou com “cotas”. Nos EUA (que também é um país com problemas raciais), não importa a cor da sua pele, mas sim a sua capacidade. A questão aqui vai além da autoestima.
A sociedade negra brasileira necessita de ações diárias dos nossos governantes e da população em geral contra o preconceito. Não precisamos de exemplos externos, mas sim de uma profunda reflexão e mudança interna. Não existe melhor espelho do que o de casa.
Ontem, dia 21 de março, foi o Dia Mundial Contra a Discriminação Racial. Você sabia? Qual é a sua atitude?
* Não questiono a importância do líder Barack Obama, mas não acredito que, em apenas dois dias, ele possa derrotar o inimigo que enfrento desde o dia em que nasci.
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