quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As lágrimas do crocodilo


“Ronaldinho Gaúcho disse que faria tudo que estivesse à seu alcance pra ajudar as vitimas da Região Serrana. Iniciemos então a Campanha: "Ronaldinho, doe seu primeiro salário do Flamengo". Certamente esses 1,8 milhões não irão lhe fazer falta, mas pras vitimas será de enorme valia.”

Essa é a campanha que insiste em aparecer a cada cinco minutos no meu Facebook, a coqueluche da semana. Uma iniciativa de protesto contra a desigualdade e falta de sensibilidade dos ricos. Um discurso lindo e poético... Mas apenas isso.

Quantas roupas você entregou na última campanha do agasalho? Quantas vezes você deixou o seu lar e enfiou o pé na lama para ajudar uma vítima de enchente? Qual a quantidade de alimentos que você já doou?

Protestar do conforto de casa ou da cadeira do trabalho é muito fácil, ainda mais quando as ferramentas de “guerra” são as famigeradas redes sociais. Espaços democráticos, onde se tem a liberdade de expressar opiniões para milhares de pessoas... Tudo em troca de status, do rótulo de “engajado”, de preocupado com o que acontece no seu país.

Seria bem legal se, ao menos, metade dos que enviaram mensagens sugerindo a doação do Ronaldinho fizessem algo também. O discurso é lindo, mas falta ação! O que te faz diferente de um sensacionalista como o Datena??? Ou dos políticos que desviam nosso dinheiro e depois, na maior cara de pau, colocam capacetes e apenas “vistoriam” os locais atingidos.

Copiar essa campanha no Facebook não é uma atitude de protesto... É apenas uma forma travestida de fazer média! Uma maneira de mascarar a nossa falta de atitude em relação aos inúmeros problemas que assolam o povo brasileiro. É juntar dois assuntos “quentes”: A contratação milionária de uma estrela do futebol e uma das maiores desgraças naturais do país. Aposto que daqui a dois meses quase nenhum dos que protestaram via redes sociais vão se lembrar do ocorrido, vão estar tão sensibilizados com a situação de quem perdeu tudo.

Falsa indignação, falsas lágrimas, falsa campanha... falsos brasileiros.

PS: O salário do Ronaldinho Gaúcho é R$ 1,3 milhão e não R$ 1,8 milhões, como tem sido publicado. A falta de informação é um dos piores erros em um protesto!

*Claro que existe uma pequena parte que realmente está preocupada.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A última que morre


Como encerrar um ciclo pode ser doloroso. Mesmo que distante, sempre alimentei a esperança de conseguir. Ela despertou algo puro, intenso e único. Como uma criança, aguardei a minha vez, sabia que um dia o sonho seria real.

Por ela fiz tudo o que podia para ser melhor. Mudei conceitos, abri mão do meu orgulho, aceitei condições... Tudo para que um dia ela me enxergasse, mas foi em vão.

Por ela tranquei, com todas as forças, o meu coração. Não deixei ninguém chegar perto... Seria muito arriscado estar com alguém quando ela finalmente precisasse de mim.

Antes de cada atividade eu pensava nela... Era o motivo da minha batalha, era a razão para o meu esforço. Tinha certeza que ela notaria minha presença e ficaria orgulhosa se eu desse o melhor no trabalho, nos estudos, no relacionamento com as pessoas, mas novamente foi em vão.

Curiosamente, minha esperança foi apagada por uma luz, por uma benção divina, por uma vida.

Por quem eu vou lutar agora? Por qual motivo? Com qual empenho?

A realidade, cruelmente, bate forte no lugar que guardei para ela. O meu quebra-cabeça, incontestavelmente, ficará sem a última peça.

A dor mais forte é aquela que não permite lágrimas, que não deixa espaços para uma fuga, que te faz enxergar, dolorosamente, cada erro cometido...

Falhei.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Prostituição e aposentadoria


A novela Ronaldinho Gaúcho, que bateu fácil qualquer uma das mexicanas, apresentou aspectos preocupantes em todos os setores que estão envolvidos com o futebol brasileiro.

O primeiro é a prostituição de um craque e o mal que um empresário pode fazer. O leilão escancarado e sujo promovido por Assis, irmão e representante do astro, foi algo repugnante. Deu a palavra de acerto para alguns clubes, enquanto negociava com outros às escuras. Isso tem um nome: pilantragem!

O segundo é o próprio Ronaldinho, que tratou de brincar com o coração dos torcedores gremistas ao dizer que se dependesse de sua vontade retornaria ao estádio Olímpico. Mascarado, o craque fez juras de amor ao time gaúcho, mas estava atrás de um time que se rendesse às suas vontades e regalias.

Ao falar que retornou ao país por causa da Copa do Mundo de 2014, Ronaldinho confirma que já não é, nem de perto, o jogador que fez história no Barcelona. Se jogar no Brasil é uma maneira mais fácil de voltar à seleção, significa que o nível técnico por aqui é menor do que na Itália, fato que entrega a queda de rendimento do atleta. Certamente, ele já não consegue atuar bem nos gramados europeus (onde estão os melhores do planeta).

O terceiro é exatamente a submissão dos dirigentes brazucas. Cegos, eles atropelaram a política de contratações dos clubes e fizeram acordos absurdos, mesmo devendo até as calças, para atingirem as cifras desejadas por Ronaldinho, além de se entregarem por completo aos desejos do jogador.

Se o marketing que será feito em cima do craque paga a conta? Sim! Mas isso significa que os cartolas não estão nem aí para o que acontece dentro das quatro linhas. Se ele vai jogar bem ou não? Isso pouco importa! Assim, a falta de títulos e péssima administração ficam em segundo plano se comparadas ao brilho de uma estrela.

O quarto é a péssima cobertura da imprensa esportiva. Sem nenhum fato importante para noticiar, já que quase ninguém fala sobre as falcatruas nas obras para a Copa, a maioria dos veículos demonstraram falta de percepção ao analisar a novela. Dizer que o astro volta para o Brasil porque o nosso futebol passa por um bom momento financeiro ou é competitivo o suficiente para fazer frente ao europeu é um crime.

A volta de Ronaldinho ao Brasil serviu apenas para mostrar o quanto nosso esporte é incoerente e, principalmente, amador. Aqui é o caminho mais fácil para ídolos decadentes buscarem sombra e água fresca, utilizando suas imagens “intocáveis” e a paixão do torcedor brasileiro para travestir a falta de profissionalismo. Um brinde à aposentadoria de mais um craque. Dizer que aqui é o país do futebol já é algo totalmente questionável!